Apresentar atestados frequentes de poucos dias com CIDs diferentes tem Implicações jurídicas, laborais e de saúde.
Introdução
A apresentação recorrente de atestados médicos referentes a ausências de poucos dias, cada um acompanhado de diferentes CIDs (Classificação Internacional de Doenças), tornou-se um tema de preocupação tanto para empregadores quanto para profissionais de saúde e indivíduos.
Este comportamento, além de levantar questionamentos legais, pode:
- sinalizar desafios de saúde subjacentes
- impactar o ambiente organizacional
- influenciar a estabilidade no emprego
Entendendo o contexto dos atestados médicos
Os atestados médicos têm a função de justificar ausências do trabalho por motivo de saúde, garantindo proteção ao indivíduo e segurança jurídica para colaboradores e empregadores. O CID é incluído para indicar o diagnóstico do problema de saúde, embora sua obrigatoriedade varie conforme legislação e acordos locais. Quando atestados são apresentados de forma recorrente, principalmente para períodos curtos e com diferentes CIDs, certas situações podem sinalizar que merecem atenção especial.
Principais riscos para o indivíduo
Percepção negativa por parte do empregador
O colaborador pode passar a ser visto como alguém que não demonstra comprometimento ou responsabilidade, principalmente se as ausências prejudicarem o andamento das atividades.
Questionamento sobre a veracidade dos atestados
A apresentação frequente de documentos médicos, cada um com CIDs diferentes, pode levantar suspeitas quanto à autenticidade das justificativas ou mesmo quanto à existência de problemas de saúde reais.
Risco de investigações internas
Empresas podem iniciar investigações para verificar se há abuso na utilização de atestados, o que pode resultar em advertências, suspensões e até desligamento por justa causa, caso seja comprovada má-fé.
Perda de confiança
Tanto colegas quanto lideranças podem perder a confiança na pessoa, afetando o relacionamento interpessoal e a integração no ambiente de trabalho.
Impacto na carreira
A frequência de ausências pode prejudicar avaliações de desempenho, crescimento profissional e oportunidades de promoção.
Prejuízos à saúde mental
O clima de desconfiança e pressão pode gerar ansiedade, estresse ou agravar quadros existentes, dificultando ainda mais a retomada do equilíbrio.
Implicações jurídicas e administrativas
A legislação trabalhista brasileira prevê que o atestado médico, se emitido por profissional habilitado, deve ser aceito pela empresa para justificar o afastamento. Contudo, o excesso de atestados consecutivos, especialmente com diferentes diagnósticos, pode ser interpretado como abuso de direito. As empresas podem recorrer à perícia médica ou solicitar esclarecimentos junto aos profissionais que emitiram os documentos. Caso seja evidente que o colaborador está agindo de má-fé, há respaldo para aplicação de medidas disciplinares, conforme previsto na Consolidação das Leis do Trabalho (CLT).
- Fraude documental: Apresentar atestados falsos ou obter documentos sem necessidade real configura crime e pode resultar em demissão por justa causa, além de responsabilização cível e criminal.
- Perícia médica: Em casos suspeitos, a empresa pode submeter o colaborador à perícia médica para validar a necessidade e a veracidade dos afastamentos.
- Registro e controle: O RH das empresas costuma manter um histórico das ausências justificadas, o que facilita identificar padrões suspeitos e tomar providências cabíveis.
Impactos para a empresa
A apresentação frequente de atestados de curto prazo, especialmente com CIDs diferentes, afeta diretamente a rotina das organizações, podendo trazer prejuízos tanto operacionais quanto financeiros:
Redução da produtividade
Ausências constantes comprometem prazos, projetos e a distribuição de tarefas entre a equipe.
Sobrecarregamento dos colegas
Os demais integrantes do time podem ser sobrecarregados para suprir a ausência, levando à insatisfação e ao aumento do risco de adoecimento.
Clima organizacional
A recorrência de afastamentos pode gerar desconfiança, comentários e boatos, prejudicando o engajamento e a harmonia entre colaboradores.
Custos adicionais
A necessidade de contratações temporárias, treinamentos e ajustes na equipe aumenta os gastos da empresa.
Dificuldade em planejar
A imprevisibilidade das ausências dificulta a elaboração de cronogramas e a definição de metas.
Questões de saúde e acompanhamento adequado
Nem sempre o padrão de atestados frequentes com diferentes CIDs se deve a má-fé. Pode refletir quadros de saúde complexos, múltiplas doenças, comorbidades ou dificuldades de acesso a diagnóstico preciso. É fundamental que o colaborador tenha acompanhamento médico de qualidade, visando identificar causas subjacentes e buscar soluções efetivas para o quadro clínico.
- Multimorbidade: Indivíduos podem apresentar doenças diferentes em sequência, especialmente em contextos de imunidade baixa, estresse ou condições crônicas.
- Fragmentação do cuidado: Consultas com profissionais distintos podem resultar em diagnósticos variados e emissão de diferentes CIDs, dificultando a compreensão do histórico clínico.
- Necessidade de abordagem integrada: O acompanhamento por médico do trabalho, médico de família ou equipe multidisciplinar pode ajudar a entender a recorrência dos sintomas e a inter-relação entre diferentes doenças.
Boas práticas para prevenção de riscos
A fim de evitar os riscos mencionados, recomenda-se:
- Manter comunicação transparente com a empresa: Informar com antecedência sobre necessidades e dificuldades de saúde, sempre que possível.
- Buscar acompanhamento médico contínuo: Optar por profissionais que conheçam o histórico e possam oferecer abordagem personalizada e integrada.
- Organizar os documentos médicos: Guardar laudos, exames e atestados, facilitando esclarecimentos em caso de necessidade.
- Evitar a fragmentação de consultas: Priorizar o atendimento com o mesmo médico ou equipe, sempre que possível, para garantir maior clareza e consistência nos diagnósticos.
- Prezar pela ética: Jamais solicitar ou apresentar atestados sem necessidade real; zelar pela honestidade e responsabilidade no relacionamento profissional.
Conclusão
Apresentar atestados de poucos dias com diferentes CIDs pode ser necessário em casos de saúde complexos, mas também pode gerar riscos significativos para o indivíduo e para a empresa, principalmente se for interpretado como abuso ou má-fé.
O zelo pela transparência, pelo acompanhamento médico adequado e pelo respeito à legislação é imprescindível para evitar problemas legais, administrativos e de relacionamentos no ambiente de trabalho.
A construção de um ambiente saudável depende do compromisso coletivo com a verdade, o diálogo e a responsabilidade de todas as partes envolvidas.
Revisão médica: Dra Cléo Etges, CRM 90.922. Medicina do Trabalho (USP – Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo) e Medicina Integrativa (Hospital Albert Einstein Instituto Israelita de Ensino e Pesquisa).

