Uma reflexão sobre a medicina moderna e o cuidado com o ser humano
Dra. Cléo Etges
Especialista em Medicina do Trabalho | Medicina Integrativa
A medicina evoluiu de forma extraordinária nas últimas décadas. Hoje contamos com exames altamente sofisticados, tratamentos inovadores e tecnologias capazes de salvar inúmeras vidas.
Mas, em meio a tantos avanços, surge uma pergunta importante:
Será que evoluímos na mesma proporção na forma de cuidar das pessoas?
No início da Medicina Ocidental, o cuidado era essencialmente humanístico. O ser humano era compreendido de forma integral — corpo, mente e espírito. O médico combinava conhecimento científico com sensibilidade, escuta e compreensão da história de vida do paciente.
Com o passar do tempo, essa abordagem começou a mudar.
A prática médica passou a valorizar cada vez mais exames, tecnologias diagnósticas e protocolos padronizados. Esses recursos são fundamentais e salvam vidas, mas muitas vezes acabam reduzindo o paciente a um diagnóstico ou a um conjunto de resultados laboratoriais.
E é justamente nesse ponto que surge um dos grandes desafios da medicina contemporânea.
A crescente insatisfação com o modelo atual de atendimento
Cada vez mais pessoas relatam frustração com atendimentos médicos focados apenas na doença e nos sintomas.
O paciente frequentemente não se sente ouvido.
Não se sente compreendido.
E, principalmente, não se sente participante do próprio processo de tratamento.
Por isso, cresce no mundo todo a busca por uma medicina que enxergue o indivíduo de forma mais ampla — considerando não apenas a doença, mas também fatores como:
- estilo de vida
- alimentação
- saúde emocional
- qualidade do sono
- atividade física
- relações sociais
- propósito de vida
Esse é um dos pilares da medicina integrativa, que busca tratar a pessoa como um todo.
O paradoxo da saúde moderna
Apesar de todo o conhecimento disponível hoje, a natureza humana tende a ignorar sinais de alerta.
Muitas pessoas só buscam mudanças quando a situação já se tornou grave.
Na prática clínica, é comum observar pacientes procurando abordagens integrativas apenas após o diagnóstico de doenças importantes — muitas vezes em uma busca desesperada por melhora ou sobrevivência.
Poucos procuram esse cuidado de forma preventiva.
Quando o médico se torna paciente
Uma das experiências mais transformadoras na vida de um médico é, em algum momento, ocupar o lugar do paciente.
Essa vivência revela claramente as limitações dos modelos atuais de assistência à saúde.
Mesmo em hospitais considerados referência, é comum encontrar profissionais altamente qualificados tecnicamente, mas que ainda têm dificuldade em considerar o paciente em sua totalidade.
Grande parte dessa realidade está relacionada à forma como os profissionais são formados.
A formação médica tradicional ainda é predominantemente tecnicista, centrada na doença e na sofisticação diagnóstica. A clínica — baseada na escuta e na compreensão do paciente — muitas vezes perde espaço para a superespecialização.
Estamos vivendo mais… mas estamos vivendo melhor?
A medicina moderna permite que muitas pessoas vivam mais tempo.
Mas surge uma reflexão necessária:
Estamos realmente vivendo melhor?
Em muitos casos, estamos apenas prolongando a vida com múltiplos tratamentos, medicamentos contínuos e grande dependência tecnológica.
Ao mesmo tempo, nos afastamos de fatores fundamentais para a saúde humana:
- contato com a natureza
- movimento corporal
- alimentação natural
- conexão social
- equilíbrio emocional
- integração entre corpo e mente
Curiosamente, são justamente esses fatores que apresentam grande impacto na prevenção de doenças.
Um novo caminho para a medicina

Para avançarmos na promoção da saúde, dois pilares são fundamentais.
1. Repensar a formação dos profissionais de saúde
É necessário ampliar o olhar médico para além da doença, incorporando uma visão preventiva e integrativa.
2. Educar as pessoas sobre sua própria saúde
Cada indivíduo precisa compreender que pequenas mudanças no cotidiano podem gerar impactos duradouros no bem-estar físico e mental.
Entre os principais pilares da saúde estão:
- alimentação equilibrada
- atividade física regular
- sono de qualidade
- gestão do estresse
- conexões sociais saudáveis
A verdadeira transformação acontece quando cada pessoa assume um papel ativo no cuidado com sua própria saúde.
Uma pergunta que todos deveriam se fazer
Em algum momento da vida, todos nós precisaremos de atendimento médico.
E diante disso surge uma pergunta simples, mas profunda:
Como você gostaria de ser tratado quando esse momento chegar?
Como apenas mais um número dentro de um protocolo padronizado?
Ou como um ser humano único, com história, emoções e potencial de recuperação?
O verdadeiro cuidado em saúde
A medicina mais eficaz não é aquela que escolhe entre tecnologia ou humanização.
É aquela que integra os dois.
A tecnologia salva vidas.
Mas a escuta, o acolhimento e a visão integral do ser humano transformam a experiência do cuidado.
Como afirmou o psiquiatra Carl Jung:
“Conheça todas as teorias, domine todas as técnicas, mas ao tocar uma alma humana seja apenas outra alma humana.”
Que possamos caminhar em direção a uma medicina mais humana, preventiva e integrativa.
Uma medicina que cuide não apenas das doenças, mas das pessoas.
ANÁLISE CRÍTICA REFLEXIVA
Dra Cléo de Siqueira Etges, especialista em Medicina do Trabalho com abordagem em Medicina Integrativa
Ao longo do tempo, a humanidade evoluiu com avanços tecnológicos impressionantes, e a relação médico-paciente tem grande importância como meio essencial e complementar a essa evolução tecnológica. No início, a Medicina Ocidental era uma ciência essencialmente humanística com uma visão holística, que entendia o homem como um ser dotado de corpo e espírito. O médico aliava conhecimentos científicos e humanísticos na prática médica, isso foi gradativamente sendo substituído pela solicitação e execução de exames mais modernos e medicamentos mais eficazes, mudando para uma abordagem baseada apenas em evidências clínicas e tecnológicas para o fechamento do diagnóstico e tratamento.
Na medicina atual, tem aumentado a insatisfação com a relação médico-paciente que foca somente na doença e segue protocolos estabelecidos para todos os pacientes com mesmo diagnóstico. Aumenta a cada dia a procura por uma medicina que considere a pessoa como um todo, com uma abordagem de todos os aspectos que influenciam o processo de doença e cura e que os permita participar ativamente de todo o processo de tratamento.
Ainda assim, a natureza humana é propensa a esquecer de antecipar mudanças até a situação realmente ficar péssima e até estar desconfortável o suficiente para não poder mais prosseguir com as atividades normais. A maioria das pessoas que procuram uma abordagem da Medicina Integrativa ainda é de pessoas com uma doença grave instalada, numa busca desesperada por uma melhora, na maioria das vezes em busca de uma sobrevivência e não de uma vivência satisfatória com mudanças definitivas no estilo de vida.
Minha experiência pessoal como médica que se torna paciente em determinado momento da vida, foi perceber como nossos atuais sistemas e modelos de realidade na área da saúde em hospitais considerados referência precisam de algo novo na assistência ao paciente. É muito comum, médicos com ótima formação, considerados referência em suas áreas desconsiderarem completamente uma abordagem holística do paciente. Com uma formação tecnicista decorrente de um sistema de ensino alienante, centrado na concepção biológica e referenciado em sofisticação diagnóstica, no qual a clínica perde espaço para a valorização de médicos muito especializados, começamos a entender a não participação, a passividade, a indiferença, o alheamento às evidências científicas sólidas de que a Medicina Integrativa é eficaz. Sem negar os fatos desconsideram os efeitos em seus pacientes que adotam medidas como mudanças no estilo de vida, por vezes, desmotivando-os. A alienação a que o processo nos conduz leva à busca de uma onipotência que a ciência e o domínio de suas verdades parecem nos oferecer.
Estamos morrendo tecnologicamente bem assistidos. Mas até quando viveremos tão distanciados de nossas raízes animais da terra, da água, da natureza, da conexão corpo mente? Não há esforços significativos para educar o homem em sua alimentação, sua atividade física, sua integração social e sua reflexão mental, o que, comprovadamente, gera excelentes resultados e sobrevida.
É fundamental, além de uma revisão da formação dos profissionais de saúde, para mudar a maneira como as doenças são tratadas e como esses profissionais podem atuar de forma preventiva, antecipando a instalação da doença e principalmente a sua recorrência, a educação sobre passos práticos que qualquer pessoa possa empreender para fazer mudanças em nível de corpo e mente que levarão a resultados duradouros para um caminho em busca da saúde integral e de uma consciência mental mais expandida, onde cada pessoa seria responsável por sua própria saúde. Como citou Carl Jung, “Conheça todas as teorias, domine todas as técnicas, mas ao tocar uma alma humana seja apenas outra alma humana”.
Todos em algum momento de sua existência precisarão de cuidados médicos e como você gostaria de ser tratado nesse momento? Como apenas um número seguindo um protocolo preestabelecido ou como um ser único, dotado de inteligência, ciente de suas habilidades, responsabilidades e com consciência da capacidade inata do corpo de autocura através de inúmeras possibilidades de autocuidado?
Diante de tudo isso, desejo que todos recebam tratamento humanizado, holístico e integrativo.
https://santeocupacional.com.br/sante-medicina-integrativa/
REFERÊNCIAS
- PESSOTTI, I. A Formação humanística do médico. Medicina, Ribeirão Preto, v. 29, n. 4, p. 440-448, out./dez. 1996.
- LIMA. P.T. Bases da Medicina Integrativa. 2ª ed. Barueri. Ed. Manole, 2018, Capítulos 1 e 2.
- NASCIMENTO JR, P. G.; GUIMARÃES, T. M. M. A relação médico-paciente e seus aspectos psicodinâmicos. Bioética nº 11 de 27/11/2003, Pg. 101.
- CHAVES, M. M. Complexidade e transdisciplinaridade: uma abordagem multidimensional do setor saúde. Rev. bras. educ. med. vol.22, n .1. Brasília: Jan./Abr.1998.
- PAZINATTO, M. M. A relação médico-paciente na perspectiva da Recomendação CFM 1/2016. Rev. Bioética. vol.27 n .2, Brasília: Abr./Jun. 2019.
- DISPENZA. J. Quebrando o hábito de ser você mesmo. 3ª ed. Porto Alegre: CDG, 2019, Capítulo 1.

