O que é?
- Epicondilite lateral (cotovelo do tenista): dor na face lateral do cotovelo, associada sobretudo ao tendão do extensor radial curto do carpo (ECRB) e extensores do punho/dedos.
- Epicondilite medial: dor na face medial, relacionada ao grupo flexor-pronador.
Causas e fatores de risco (com foco ocupacional)
Mecanismo principal: microtrauma repetitivo + falha de reparo tendíneo (“tendinopatia”) por:
- Repetição (movimentos cíclicos de punho/cotovelo).
- Força (preensão palmar, torque com ferramentas, levantamento).
- Posturas (punho em extensão sustentada, desvios ulnar/radial).
- Vibração (ferramentas vibratórias).
- Picos de carga (metas, ritmo elevado, pausas insuficientes).
Ocupações frequentemente implicadas (exemplos): linha de produção, frigoríficos, construção civil, manutenção, limpeza, cozinha industrial, logística (manuseio/embalagem), digitação intensiva com mouse/teclado (geralmente como componente de carga combinada e ergonomia inadequada).
Diagnóstico (clínico na maioria)

- Diagnóstico é predominantemente clínico (história + exame).
- Imagem é reservada para: dúvida diagnóstica, refratariedade, suspeita de ruptura, artropatia, compressão neural, ou planejamento intervencionista/cirúrgico.
Diagnósticos diferenciais importantes
- Radiculopatia cervical, síndrome do túnel radial/supinador (PIN), instabilidade ligamentar, artrose, bursites, doenças inflamatórias, dor referida do ombro.
Exame físico ortopédico detalhado (para confirmar epicondilite)
1) Inspeção
- Edema/eritema (incomum na tendinopatia; sugere outra causa).
- Atrofia (sugere acometimento neural ou desuso prolongado).
- Padrão de proteção do membro, limitações funcionais.
2) Palpação (ponto de máxima dor)
- Lateral: 5–10 mm anterior e distal ao epicôndilo lateral (origem dos extensores/ECRB).
- Medial: região do epicôndilo medial (origem do flexor-pronador).
- Palpar interlinha articular, cabeça do rádio e trajeto do nervo radial/ulnar para excluir outras fontes.
3) Amplitude de movimento (ADM)
- Cotovelo: flexo-extensão e prono-supinação (limitação marcada sugere artrite/lesão articular).
- Punho: flexo-extensão e desvios; comparar bilateralmente.
4) Testes provocativos (principais)
Epicondilite lateral
- Cozen: punho em extensão resistida (com punho em leve extensão e antebraço em pronação) → dor no epicôndilo lateral.
- Mill: alongamento com flexão de punho + extensão de cotovelo (antebraço pronado) → dor lateral.
- Maudsley: extensão resistida do 3º dedo → dor lateral (tende a recrutar EDC/ECRB).

Epicondilite medial
- Flexão resistida do punho e/ou pronação resistida → dor no epicôndilo medial.
- Alongamento: extensão de punho/dedos com cotovelo estendido → dor medial.
5) Avaliação neurológica e testes para “mimetizadores”
- Força e sensibilidade: territórios radial, mediano e ulnar.
- Túnel radial / PIN: dor mais distal no antebraço (músculo supinador), pior com supinação resistida e extensão do 3º dedo; pode coexistir.
- Nervo ulnar (medial): Tinel no sulco cubital, sintomas parestésicos 4º/5º dedos.
6) Testes de estabilidade/ligamentos (se história de trauma ou instabilidade)
- Estresse em varo/valgo (LCL/UCL).
- Dor mecânica/falseio → considerar lesão ligamentar.
Tratamento (baseado em escalonamento)

1) Medidas iniciais (primeiras 6–12 semanas)
- Redução/adequação de carga (essencial): diminuir repetição/força, ajustar ferramentas, rodízio de tarefas, pausas.
- Gelo pós-atividade e analgesia.
- AINE tópico/oral por curto período (se sem contraindicação).
- Fisioterapia: foco em exercícios excêntricos e fortalecimento progressivo do antebraço, treino de preensão, controle escapular, alongamentos.
- Órtese: cinta/brace no antebraço (counterforce) ou tala de punho (casos selecionados).
- Ergonomia: altura de bancada, pega de ferramentas, reduzir vibração, adequar peso e frequência.
2) Refratários (após reabilitação bem conduzida)
- Infiltração: pode aliviar dor no curto prazo, mas não substitui reabilitação e pode ter recorrência (selecionar com critério).
- Terapias guiadas (conforme disponibilidade e caso): reabilitação supervisionada intensiva; outras intervenções conforme protocolos locais.
- Cirurgia: rara; considerar após falha prolongada do tratamento conservador e confirmação diagnóstica.
Investigação do nexo ocupacional (ênfase prática)
Objetivo
Demonstrar, com base clínica e ocupacional, se há relação causal/concausal entre a exposição no trabalho e a epicondilite, além de caracterizar incapacidade e necessidade de medidas de prevenção/adequação.
Passo a passo (checklist operacional)
Passo 1 — Confirmar diagnóstico clínico
- História típica + testes provocativos positivos.
- Excluir red flags e diferenciais (radicular, neuropatias, instabilidade, artrite).
Passo 2 — Anamnese ocupacional estruturada (detalhar tarefas)
Documentar:
- Função/CBO, setor, tempo no cargo.
- Descrição minuciosa das tarefas (o que faz, como faz, com que ferramentas).
- Frequência (ciclos/minuto, horas/dia), força (peso, torque), preensão, posturas (punho em extensão, desvio ulnar, cotovelo estendido), vibração, metas/ritmo, pausas.
- Mudanças recentes: aumento de produção, substituição de ferramenta, falta de rodízio, redução de pausas.
Passo 3 — Linha do tempo (critério temporal)
- Início dos sintomas vs. início/alteração da exposição.
- Piora ao trabalhar e melhora em folgas/férias (quando presente).
- Episódios prévios, tratamentos e resposta.
Passo 4 — Avaliar exposições extraocupacionais e fatores pessoais (para concausa)
- Esportes (tênis, musculação), hobbies manuais, trabalho doméstico pesado.
- Comorbidades relevantes e histórico musculoesquelético.
Passo 5 — Compatibilidade biomecânica
- Relacionar o padrão de carga do trabalho com o tecido acometido:
- Extensão repetida de punho + preensão/torque → lateral.
- Flexo-pronação repetida/força → medial.
Passo 6 — Evidências do ambiente de trabalho
- Solicitar/consultar quando possível:
- Descrição de cargo, ordens de serviço, PPRA/PGR, PCMSO, LTCAT (quando aplicável), relatórios de ergonomia, fichas de EPI, registros de afastamentos e mudanças de função.
- Ideal: visita técnica/ergonômica ou relatório do SESMT/ergonomia.
Passo 7 — Classificação: causal, concausal ou não relacionado
- Causal: exposição suficiente, temporalidade clara, compatibilidade biomecânica, exclusão razoável de outras causas predominantes.
- Concausal: trabalho contribui de forma relevante, mesmo com fatores extraocupacionais.
- Não relacionado: ausência de exposição plausível/temporalidade incompatível/diferencial mais provável.
Passo 8 — Conduta médico-legal e assistencial
- Registrar diagnóstico, achados de exame, limitações funcionais, e recomendar adequações.
- Se suspeita de nexo: orientar abertura de CAT e encaminhamento para avaliação previdenciária quando houver incapacidade/afastamento.
CAT: quem é responsável por emitir (Brasil)

A empresa (empregador) é responsável por emitir a CAT quando houver suspeita/ocorrência de acidente/doença do trabalho; na omissão do empregador, podem emitir a CAT o próprio trabalhador, seus dependentes, o sindicato, o médico assistente ou autoridade pública (regra prática aplicada na rotina previdenciária).
Direitos do trabalhador após comprovação do nexo causal (em geral, no INSS)
Com nexo reconhecido e caracterização como benefício acidentário (B91) quando houver incapacidade:
- Estabilidade provisória de 12 meses após retorno ao trabalho (alta do INSS) quando houve afastamento com benefício acidentário.
- Depósitos de FGTS durante o afastamento por benefício acidentário.
- Reabilitação profissional (quando indicada) e possibilidade de readaptação/adequação de função.
- Possibilidade de indenizações (esfera trabalhista/cível) se houver culpa/dolo e dano, conforme avaliação jurídica e provas
