Por que engordo mesmo comendo pouco? Entenda as causas do ganho de peso

“Eu como pouco.” “Já tentei de tudo.” “Não consigo emagrecer.”

Essas são frases frequentes no consultório e merecem ser ouvidas sem julgamento.

A dificuldade para emagrecer não deve ser reduzida à falta de força de vontade. A obesidade é uma doença crônica e multifatorial, influenciada pela interação entre fatores biológicos, genéticos, comportamentais, psicológicos, ambientais e sociais.

Por isso, quando uma pessoa afirma que engorda mesmo comendo pouco, a pergunta mais útil não é simplesmente “quanto ela come?”, mas compreender o conjunto de fatores que pode estar influenciando o peso e a saúde.

Fome e saciedade, gasto energético, composição corporal, sono, estresse, medicamentos, condições de saúde, rotina, ambiente alimentar e histórico de dietas podem participar desse processo.

Comer pouco é diferente de consumir pouca energia

Uma das primeiras questões a esclarecer é o que significa, na prática, “comer pouco”.

É possível fazer refeições pequenas e, ao mesmo tempo, consumir uma quantidade significativa de energia ao longo do dia. Bebidas alcoólicas, refrigerantes, cafés adoçados, petiscos, beliscos entre as refeições, molhos, alimentos muito calóricos em pequenas porções e refeições mais livres nos finais de semana podem passar despercebidos.

Isso não significa que a pessoa esteja mentindo ou que não tenha compromisso com o tratamento.

O registro alimentar é uma estimativa, e nossa memória não é perfeita. Porções podem ser subestimadas e alguns alimentos ou bebidas podem simplesmente não ser lembrados.

Estudos mostram que a subnotificação da ingestão alimentar é relativamente frequente, especialmente em pessoas com obesidade. Trata-se de uma limitação conhecida dos métodos de avaliação alimentar e não deve ser interpretada automaticamente como falta de honestidade.

Por isso, uma avaliação cuidadosa deve buscar compreender a rotina alimentar sem culpa e sem constrangimento.

O metabolismo também muda durante o emagrecimento

Outro aspecto importante é a adaptação do organismo à perda de peso.

Quando uma pessoa emagrece, seu corpo passa a gastar menos energia porque há menos massa corporal para manter. Além disso, podem ocorrer adaptações fisiológicas que aumentam a fome, reduzem a saciedade e diminuem o gasto energético.

Esse fenômeno é conhecido como termogênese adaptativa e pode contribuir para o surgimento de platôs e para a recuperação do peso após dietas restritivas.

Também podemos nos movimentar menos sem perceber: caminhar menos, permanecer mais tempo sentados, reduzir pequenos deslocamentos ou diminuir movimentos espontâneos durante o dia.

Por isso, o gasto energético diário não depende apenas do exercício realizado na academia.

Sono, estresse e saúde mental também podem influenciar o peso

Dormir pouco ou ter um sono de má qualidade pode alterar mecanismos relacionados à fome e à saciedade e favorecer escolhas alimentares mais calóricas.

A apneia obstrutiva do sono, por exemplo, deve ser considerada quando existem sinais como ronco intenso, pausas respiratórias durante o sono e sonolência excessiva durante o dia.

O estresse crônico também pode modificar o comportamento alimentar. Algumas pessoas passam a comer mais, enquanto outras apresentam alterações importantes na rotina, no sono e na atividade física.

Ansiedade, depressão e episódios de compulsão alimentar também merecem avaliação profissional.

O objetivo não é atribuir o ganho de peso a um único fator, mas compreender como diferentes fatores estão interagindo naquela pessoa.

Existem doenças que podem dificultar o emagrecimento?

Sim. Algumas condições clínicas podem estar associadas ao ganho de peso ou à dificuldade de perda ponderal.

Entre elas estão:

  • hipotireoidismo;
  • síndrome de Cushing;
  • síndrome dos ovários policísticos;
  • apneia obstrutiva do sono;
  • alterações metabólicas;
  • algumas condições hormonais e endócrinas.

Entretanto, é importante evitar uma interpretação simplista.

Nem todo ganho de peso é causado por um problema hormonal. Essas condições devem ser investigadas quando a história clínica, os sintomas e o exame médico justificarem.

A avaliação individualizada é mais importante do que solicitar indiscriminadamente uma grande quantidade de exames.

Medicamentos também podem influenciar o peso

Alguns medicamentos estão associados ao ganho de peso, e esse aspecto deve fazer parte da avaliação de quem apresenta dificuldade para emagrecer.

Entre as classes que podem merecer revisão estão:

Classe de medicamentosExemplosObservação
Antipsicóticosclozapina, olanzapina, quetiapina, risperidonaAlguns apresentam maior potencial de ganho de peso e alterações metabólicas.
Antidepressivosamitriptilina, mirtazapina, paroxetinaO efeito varia de acordo com o medicamento e a pessoa.
Antidiabéticosinsulina, sulfonilureias, pioglitazonaAlguns favorecem ganho de peso, enquanto outros apresentam perfil mais neutro ou favorável.
Anticonvulsivantesvalproato, carbamazepina, gabapentina, pregabalinaO efeito sobre o peso varia entre os medicamentos.
Corticoides sistêmicosprednisona, prednisolona, dexametasonaPodem favorecer ganho de peso e alterações metabólicas, especialmente com uso prolongado.
Alguns betabloqueadoresatenolol, metoprolol, propranololO efeito varia entre os medicamentos e deve ser avaliado individualmente.
Alguns contraceptivos hormonaisespecialmente medroxiprogesterona injetávelA resposta é variável e deve ser discutida individualmente.

Importante: nenhum medicamento deve ser interrompido ou substituído por conta própria. A decisão deve considerar a doença que está sendo tratada, os benefícios do medicamento, seus efeitos adversos e as alternativas disponíveis.

Genética, idade, menopausa e ambiente também fazem parte da história

O peso corporal é resultado da interação de muitos fatores.

A predisposição genética pode influenciar fome, saciedade, distribuição de gordura e resposta ao ambiente alimentar.

Com o envelhecimento, também podem ocorrer mudanças na composição corporal, incluindo redução da massa muscular e alterações no gasto energético.

Na menopausa, mudanças hormonais podem contribuir para alterações na distribuição da gordura corporal e na composição corporal, embora o ganho de peso não possa ser atribuído exclusivamente à queda do estrogênio.

Além disso, nosso ambiente facilita o acesso constante a alimentos altamente palatáveis e densos em energia. Rotina de trabalho, disponibilidade de tempo para cozinhar, condições financeiras, sono e oportunidades para atividade física também podem interferir nas escolhas e no comportamento.

Por isso, tratar obesidade exige olhar para a pessoa inteira, e não apenas para o prato.

“Eu como pouco e não consigo emagrecer”: o que fazer?

Antes de concluir que o metabolismo está “travado” ou que existe algum problema hormonal, vale fazer uma avaliação estruturada.

1. Observe a rotina alimentar

Durante alguns dias, registre alimentos, bebidas, horários e porções, incluindo os finais de semana.

O objetivo não é criar uma fiscalização alimentar, mas identificar padrões que podem passar despercebidos.

2. Observe fome e saciedade

Anote quando a fome aparece, se existem episódios de comer sem fome, perda de controle alimentar ou desejo intenso por determinados alimentos.

Essas informações podem ser muito importantes para a avaliação.

3. Avalie o sono

Observe duração e qualidade do sono, ronco, pausas respiratórias e sonolência durante o dia.

Quando necessário, o médico pode investigar distúrbios do sono.

4. Olhe para o movimento além do exercício

Atividade física estruturada é importante, mas também vale observar quanto tempo do dia é passado sentado e quanto movimento existe na rotina.

Caminhadas, deslocamentos e outras atividades cotidianas também fazem parte do gasto energético.

5. Revise medicamentos

Informe ao médico todos os medicamentos utilizados, inclusive aqueles de uso contínuo.

Nunca suspenda um medicamento para tentar emagrecer sem orientação médica.

6. Evite dietas extremamente restritivas

Restrições excessivas podem aumentar a fome, dificultar a manutenção da alimentação planejada e favorecer ciclos de perda e recuperação do peso.

O objetivo deve ser construir uma estratégia alimentar que possa ser mantida ao longo do tempo.

7. Procure avaliação médica quando necessário

A avaliação pode considerar histórico de peso, alimentação, atividade física, sono, medicamentos, saúde mental, antecedentes familiares, composição corporal e possíveis condições associadas.

Quando indicado, o tratamento pode incluir mudanças de estilo de vida, acompanhamento nutricional, medicamentos para obesidade e, em situações específicas, cirurgia metabólica.

A escolha depende das características e necessidades de cada pessoa.

Como falar sobre alimentação sem transformar o tratamento em culpa?

Essa é uma parte essencial do cuidado.

Quando alguém diz “eu como pouco e engordo”, responder simplesmente “você deve estar comendo mais do que imagina” pode interromper a conversa antes mesmo de começar.

Uma abordagem mais produtiva é investigar:

O que você come? Como é sua rotina? Como está seu sono? Você sente fome com frequência? Existem episódios de perda de controle? Quais medicamentos utiliza? Como está sua atividade física? Houve alguma mudança recente?

Essa postura permite transformar uma afirmação aparentemente simples em uma investigação clínica mais completa.

A obesidade é uma condição complexa e o tratamento deve ser baseado em escuta, respeito, evidências científicas e cuidado individualizado.

Afinal, como alguém pode engordar mesmo comendo pouco?

A resposta depende do que está acontecendo naquela pessoa.

Pode haver diferença entre a percepção de quantidade e o consumo energético total, adaptação metabólica após emagrecimento, redução do gasto energético, alterações do sono, medicamentos, fatores psicológicos, mudanças hormonais, genética, envelhecimento ou condições clínicas específicas.

Em muitos casos, não existe uma única causa.

O mais importante é evitar respostas simplistas.

A pergunta mais útil não é “quem está errado?”, mas:

Quais fatores estão contribuindo para o ganho de peso e qual combinação de estratégias pode ajudar essa pessoa a cuidar da saúde e manter resultados ao longo do tempo?

Cuidar do peso não deve significar viver em uma sucessão de dietas e cobranças. Deve fazer parte de uma abordagem mais ampla de saúde, comportamento, alimentação, sono, movimento e bem-estar.

Quando procurar ajuda?

Se você está ganhando peso sem entender o motivo, apresenta dificuldade persistente para emagrecer, sente perda de controle sobre a alimentação ou percebe mudanças importantes no sono, disposição ou saúde, uma avaliação profissional pode ajudar a identificar os fatores envolvidos e definir um plano individualizado.

Na Santé, acreditamos que cuidar da saúde é olhar para a pessoa de forma integral — com conhecimento técnico, prevenção e estratégias que façam sentido para a vida real.

Leia também