O que são riscos psicossociais no trabalho?
Os riscos psicossociais são fatores relacionados à organização do trabalho, às relações interpessoais e às condições emocionais e cognitivas exigidas dos trabalhadores, que podem impactar negativamente a saúde mental, física e o desempenho profissional.
Esses riscos estão diretamente associados ao aumento de afastamentos, queda de produtividade, absenteísmo e presenteísmo, além de doenças como ansiedade, depressão e síndrome de burnout.
Onde os riscos psicossociais se encaixam nos riscos ocupacionais?
De acordo com a legislação brasileira, especialmente a NR-01 (Gerenciamento de Riscos Ocupacionais – GRO), os riscos ocupacionais são classificados em:
- Riscos físicos
- Riscos químicos
- Riscos biológicos
- Riscos ergonômicos
- Riscos psicossociais (inseridos dentro dos riscos ergonômicos)
Os riscos psicossociais fazem parte do grupo de riscos ergonômicos, pois estão relacionados à organização do trabalho e às exigências cognitivas e emocionais impostas ao trabalhador.
Principais riscos psicossociais nas empresas
Os riscos psicossociais variam conforme o ramo de atividade, mas os mais comuns incluem:
1. Excesso de carga de trabalho
- Metas abusivas
- Jornadas prolongadas
- Falta de pausas
2. Pressão por resultados
- Cobranças constantes
- Cultura de alta performance sem suporte
3. Assédio moral e conflitos interpessoais
- Liderança abusiva
- Ambiente organizacional tóxico
4. Falta de controle sobre o trabalho
- Baixa autonomia
- Processos rígidos
5. Insegurança no emprego
- Rotatividade alta
- Medo de demissão
6. Falta de reconhecimento
- Ausência de feedback
- Desvalorização profissional
Riscos psicossociais por ramo de atividade
Indústria
- Ritmo intenso de produção
- Trabalho repetitivo
- Pressão por produtividade
Saúde
- Exposição constante ao sofrimento
- Sobrecarga emocional
- Jornadas extensas
Transporte e logística
- Longas jornadas
- Isolamento social
- Pressão por prazos
Teleatendimento (call center)
- Monitoramento constante
- Metas agressivas
- Baixa autonomia
Setor administrativo e corporativo
- Sobrecarga cognitiva
- Reuniões excessivas
- Ambiguidade de funções
Como identificar riscos psicossociais corretamente
A identificação deve ser estruturada, técnica e baseada em múltiplas fontes de informação:
1. Análise da organização do trabalho
- Jornada
- Ritmo
- Metas
- Estrutura hierárquica
2. Escuta ativa dos trabalhadores
- Entrevistas
- Questionários (ex: COPSOQ, HSE)
- Canais de denúncia
3. Indicadores de saúde e desempenho
- Afastamentos pelo INSS
- CID relacionados à saúde mental
- Taxas de turnover
- Absenteísmo
4. Avaliação ergonômica (AET)
A Análise Ergonômica do Trabalho é essencial para identificar fatores psicossociais ligados à organização do trabalho.
5. Observação direta
- Clima organizacional
- Interações entre equipes
- Estilo de liderança
Integração com os Programas de SST (PGR, PCMSO, AEP e AET)
A gestão dos riscos psicossociais deve ser estruturada e integrada, considerando não apenas o PGR e o PCMSO, mas também ferramentas fundamentais como a AEP (Avaliação Ergonômica Preliminar) e a AET (Análise Ergonômica do Trabalho).
PGR (Programa de Gerenciamento de Riscos)
No PGR, os riscos psicossociais devem estar formalmente contemplados no Inventário de Riscos, com:
- Identificação dos fatores psicossociais
- Avaliação qualitativa e, quando possível, quantitativa
- Classificação do nível de risco
- Definição de medidas de controle
Medidas de controle incluem:
- Adequação de carga de trabalho
- Revisão de metas e prazos
- Melhoria da comunicação organizacional
- Programas de desenvolvimento de lideranças
AEP (Avaliação Ergonômica Preliminar)
A AEP é a porta de entrada para identificação dos riscos ergonômicos, incluindo os psicossociais.
Deve ser aplicada de forma abrangente e inicial, contemplando:
- Organização do trabalho (ritmo, jornada, pausas)
- Exigências cognitivas e emocionais
- Estrutura hierárquica e fluxo de demandas
- Percepção dos trabalhadores sobre o ambiente
A AEP permite:
- Identificar indícios de riscos psicossociais
- Definir a necessidade de aprofundamento
- Priorizar áreas críticas
AET (Análise Ergonômica do Trabalho)
A AET é obrigatória quando identificados riscos relevantes e deve aprofundar a análise iniciada na AEP.
No contexto psicossocial, a AET avalia:
- Conteúdo real do trabalho (prescrito vs. real)
- Carga mental e emocional
- Autonomia e controle do trabalhador
- Relações socioprofissionais
- Fatores organizacionais que geram estresse
Diferencial da AET:
- Análise detalhada e baseada na realidade operacional
- Uso de métodos técnicos e observacionais
- Proposição de medidas corretivas estruturais
PCMSO (Programa de Controle Médico de Saúde Ocupacional)
O PCMSO deve refletir diretamente os riscos identificados no PGR, AEP e AET.
Isso inclui:
- Monitoramento da saúde mental
- Rastreamento de sinais precoces de adoecimento
- Análise de afastamentos (especialmente CID relacionados à saúde mental)
- Encaminhamento para suporte especializado
Ações práticas:
- Protocolos de avaliação psicossocial
- Vigilância epidemiológica
- Programas preventivos
Integração prática entre os programas
A integração deve seguir um fluxo lógico:
AEP → Identificação inicial dos riscos
AET → Análise aprofundada dos riscos relevantes
PGR → Consolidação, classificação e plano de ação
PCMSO → Monitoramento dos impactos na saúde
Ponto crítico na fiscalização
Auditores fiscais tendem a verificar:
- Se a AEP identificou riscos psicossociais
- Se houve AET nos casos necessários
- Se os riscos estão formalizados no PGR
- Se o PCMSO está coerente com os riscos identificados
- Se há correlação com afastamentos (INSS), CAT e dados do eSocial
A ausência dessa integração pode caracterizar falha no Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO).
Cruzamento de dados na fiscalização
A fiscalização tende a ser cada vez mais integrada, cruzando informações como:
- Afastamentos previdenciários (INSS)
- Comunicação de Acidente de Trabalho (CAT)
- Dados do eSocial
- Registros do PCMSO
- Inventário de riscos do PGR
A ausência de avaliação dos riscos psicossociais pode caracterizar não conformidade legal, sujeita a penalidades.
Boas práticas para gestão de riscos psicossociais
- Implementar cultura organizacional saudável
- Capacitar lideranças
- Promover equilíbrio entre vida pessoal e profissional
- Criar canais seguros de comunicação
- Monitorar indicadores continuamente
Conclusão
Os riscos psicossociais deixaram de ser subjetivos e passaram a ser exigência legal e estratégica dentro da Saúde e Segurança do Trabalho.
A correta identificação e gestão desses riscos não apenas evitam penalidades, mas também promovem:
- Melhor desempenho organizacional
- Redução de afastamentos
- Ambiente de trabalho mais saudável

